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20/08/2018

Faça as contas: ao aposentar, só se dá bem quem planeja


Brasileiros não se preparam para a aposentadoria e podem se surpreender, da pior forma, quando ela chegar. É nesta fase que as despesas com saúde tendem a aumentar

Descansar, abrir o próprio negócio, viajar, ter mais tempo para a família ou tudo isso junto. Esses são apenas alguns dos sonhos que as pessoas cultivam para quando se aposentarem. Porém, boa parte dos brasileiros não se prepara para esse momento e podem se surpreender, da pior forma, quando ele chegar. É nesta fase, por exemplo, que as despesas com saúde tendem a aumentar.
Uma pesquisa feita pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), neste ano, mostra que apenas 19% dos brasileiros se preparam para a aposentadoria. Outros 51% não se organizam no presente, mas farão isso em algum momento no futuro.
Esse quadro, segundo a especialista em direito previdenciário Thaís Riedel, deve mudar, já que as últimas discussões sobre a reforma no sistema previdenciário e a sua insustentabilidade fizeram com que boa parte da população ficasse mais atenta ao assunto. Para ela, as pessoas pensavam que só iriam precisar da Previdência quando ficassem velhas, porém viram que, se não pensarem no que fazer no presente, nem sempre dará tempo de correr atrás do tempo perdido.

O trabalhador vai ganhar, ao se aposentar, um teto máximo de R$ 5.645. Assim, é provável que tenha o salário diminuído de forma considerável. Para mudar isso, só uma preparação fará diferença. E quanto mais jovem a pessoa começar esse planejamento, melhor. Essa foi a receita que a servidora pública e empresária Tawanna Mendes, 26, começou a seguir há cinco anos, assim que passou em concurso público. Sua família que nunca teve muito controle financeiro. Assim ela se viu, ainda bem jovem, numa corda bamba para controlar o que ganhava e o que gastava. A promessa, assim que assumiu a vaga, foi de planejar toda a vida para que não conte apenas com o dinheiro que virá das contribuições à Previdência Social. “Eu tenho metas de vida e assim que recebo separo cada parte. Normalmente, esse é meu estilo de vida, então não sofro quando deixo de comprar algo de que não preciso nesse momento”, afirma a empresária. Se para ela não é tão difícil retirar algo todo mês, para pensar no futuro, a última pesquisa divulgada pelo SPC e pela CNDL, sobre a preparação para a aposentadoria mostra que, sem um bom planejamento, muitos ainda têm que ralar para conseguir ajustar tudo.

Onde cortar                                                                  

Na pesquisa, 88% das pessoas declararam deixar de lado alguns gastos para pensar na aposentadoria. O maior corte é nas saídas de bares e restaurantes (49%). Em seguida, compra de itens supérfluos de supermercados (46%) e gastos com viagem (40%). Nem o plano de saúde escapa do corte de 21% dos entrevistados. Apesar disso, nove em casa dez pessoas se mostraram dispostas a aumentar o tamanho da poupança atual para conseguir ter um salário maior quando parar de trabalhar. Essa preocupação é mostrada, em especial, por 38% dos entrevistados que admitem que se contarem apenas com o valor da aposentadoria da Previdência Social não será suficiente para o seu sustento. Para evitar dificuldades quando ficar mais velha, Tawanna Mendes retira 15% dos ganhos dela para investir, seja a média ou longo prazo. Ela evitou a previdência privada. Preferiu colocar boa parte de seus rendimentos no Tesouro Direto por ter perfil mais conservador.

Atrás do tempo perdido

Assim como Tawanna Mendes, a também servidora Edlene Santos da Trindade, 52 anos, começou a trabalhar bem cedo. De origem baiana, com 15 anos, ela era atendente de uma padaria na Asa Norte. Pouco depois de tornou babá e há 32 anos conseguiu sua vaga no serviço público. Porém, ela demorou a despertar para a necessidade de se preparar para “pendurar as chuteiras”. “Infelizmente só percebi o problema no fim da carreira. Eu passei muito tempo pensando em fazer algo, mas sempre deixava para lá”, lamenta a mulher que está em contagem regressiva. Ela vai parar de trabalhar em menos de três meses – dia 6 de novembro de 2018. Os planos são de começar a mexer em um blog que fale sobre revisão de texto, além de descansar bastante. “Eu comecei a trabalhar muito cedo. Não aproveitei a minha juventude para viajar. Quero fazer isso agora”, planeja. Foi só em 2016, que ela percebeu que tinha agido errado boa parte da vida. Assim, procurou maneiras de ajustar a vida financeira. Uma das maneiras foi procurar ajuda especializada, enfim conseguida no Hospital das Finanças. Hoje, ela separa uma parte do que recebe e coloca na poupança. Ela sabe que é tarde, mas quis fazer algo antes que ficasse sem opções.

Queda nos ganhos

O economista Ronalde Lins lamenta que a maioria dos brasileiros só presta atenção na aposentadoria quando começa a receber os primeiros salários com uma diminuição considerável. A média de queda, segundo ele, é de até 50% dos vencimentos recebidos anteriormente. Aí, o jeito, para muitos, é voltar para o mercado de trabalho e se cansar mais um pouco. “É preciso fazer algo logo nos primeiros meses de carreira, em especial se perceber que a perda vai ser grande. Quanto mais novo, menos vai ter que pagar por mês, já que tem o benefício do tempo. Pode ser uma previdência privada ou algum investimento que seja de 5 a 10% do valor do salário”, aconselha. O economista Ronalde Lins, do Conselho Federal de Economia (Cofecon), mostra o que fazer em diferentes momentos da vida:

Aos 20: Alguma contribuição deve ser feita logo nos primeiros salários. Pode ser previdência privada ou tesouro direto. Nessa etapa, o tempo é o grande aliado. “Esquece um pouco a farra e pense que com muito menos com o que se gasta nas festas é possível começar a se preparar para a aposentadoria”, afirma.

Aos 40: A dificuldade para conseguir bom salário na aposentadoria é maior porque o tempo está mais curto. É preciso investir em algo mais ousado e com retorno mais rápido. Outra possibilidade é investir valores bem mais altos para amenizar o tempo sem preparação.

Aos 60: Nesse ponto, o economista já não recomenda uma previdência privada porque, mesmo com altos depósitos, o tempo é muito curto. O mais recomendado é procurar um auxílio profissional para ver o que seria melhor. Se a escolha for por um investimento, é necessário que seja um de retorno muito rápido. Outra saída vai ser trabalhar por mais alguns anos, mesmo após se aposentar. A intenção é organizar a vida financeira e ter uma sobra.

Fonte: Jornal de Brasília por João Paulo Mariano
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